Caro sobrevivente,
Espero que não o incomode este chegar assim, sem pé nem cabeça – nem corpo que os una, se não o dessa escrita, ferramenta/técnica que cultivávamos apenas à distância (e cuja falta orgânica já posso sentir, em náusea que quer colocar a desordem para fora). As circunstâncias que você bem conhece me forçaram a este sacrifício; peço que receba as informações que encaminho a você com a dedicação que lhe foi incumbida (se não estiver em pleno domínio desta capacidade, por favor: não exite em consultar os manuais – o futuro de nosso povo depende desta técnica bem aplicada).
Por aqui, estou tentando encaixar as coisas neste meu ofício – que é sair ileso.
Para a elaboração dessa sintomatologia é preciso, lamentavelmente, destacar que este trabalho é parcial (e assim não arriscar a fidelidade de meus intentos) – na medida em que conheço, apenas, os primeiros estágios da peste. A partir deles, porém, pretendo encontrar as formas de contágio e, com alguma segurança, prever o desenvolvimento da doença (passos elementares para encontrarmos, em fim, a cura). Os primeiros dados, já previamente coletados (com a urgência preterida pela circunstância), estão organizados a seguir; peço desculpas pela caligrafia obtusa; vocês, sobreviventes, podem imaginar as complicações formais pelas quais tenho passado.
Dados disponíveis/dispononibilizáveis (alguns, devemos lamentar, não cabem na carta):
1) Trata-se de um vírus; trata-se de uma peste (def. “mal sem rosto”);
2) Sintomas iniciais: irritações superficiais, pequenas feridas abertas na pele (provavelmente relacionadas com o sangue, nervoso); curiosamente, as primeiras feridas sempre aparecem no rosto (nota: possível relação com a utilização de tecnologias de sentido);
3) Conforme o avanço da doença, cujo impulsor nós não pudemos descobrir a tempo, as feridas vão se aprofundando (parece, cogitamos se tratar de uma retórica), mas em geral secam e surgem outras (que não sabemos se são as mesmas); nível de teimosia (medido pelo índice XKP): moderado;
3.1) presença, no sangue, de vestígios de capricho (substância que conhecemos venenosa): há alguns casos em que as feridas são abertas e fechadas ao próprio gosto da peste (temos alguns dados preliminares sobre a influência de situações congênitas e dados ambientais nesta dinâmica diferenciada, porém não obtivemos dados conclusivos, já que as próprias situações congênitas e dados ambientais podem estar contaminados – estávamos por providenciar seu isolamento entre aspas);
4) observação perturbadora: o esforço em tapar as feridas em geral desencadeia irritações “profundas” (já assinalamos que, no caso desta peste, profundidade pode ser uma retórica da profundidade) na pele e acelera o surgimento de outras, ou nos faz percebê-las aceleradas;
5) há uma maior incidência (não conseguimos constatar a tempo se se trata de uma regra geral) em pessoas propensas ao registro (notadamente as de nível 3).
Sobrevivente, terei que parar por aqui. Necessito de um descanso, antes que a náusea me afete os ânimos ou, ainda pior, os limites (não havíamos previsto um esforço de adaptação tão grande, mas não se preocupe: tenho aperfeiçoado minha convicção há tempos, apenas necessito de algum descanso). Quando voltar, trataremos de revisar da profilaxia geral.
Atenciosamente,
(Espero que não me estranhe por não me dar um nome; é que os nomes são os mais vulneráveis).



