Texto exclusivo disponível para leitura
na Revista Samizdat, edição infanto-juvenil.
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Conto partido, I
Fiz uma Ventania tão forte, mas tão forte, que deslocou a linha do Equador; e nos varais, que outrora invejavam a condição e relevância daquela privilegiada linha, dançavam as roupas uma lambada fervorosa, destas que levantam saias e lençóis; e nos tecidos, linhas pilotavam agulhas num bordar frenético até que lhes findou o impulso: chegaram os ventos ao seu destino, e estacionaram.
(Meus caprichos são sempre assim: sem gravidade).
Tento fazer graça nessas coincidências (eu tenho das minhas ironias): estavam renovando as tintas do mundo, inclusive da linha equatorial, justamente quando do referido acontecimento. Foi um capricho meu, sobre o qual não deixei pistas, e que se escrevesse jazeria na estante de ficção (também os homens têm das suas ironias).
Neste dia, o vento corria tanto que não podíamos ver seus pés e, atrás dele, fazendo festa (como as latas que cismam em acompanhar aos tropeços os carros de recém-casados), a poeira levantava e brincava de ser névoa, névoa vermelha, que depois cai feito neve para povoar a terra e voa, esvoaça, como um grande vestido que se dissolve em panos, em linhas, em pontos… venta em letras.
As tintas equatoriais bailaram, colorindo o ar, até que a música cessasse: pairaram sonolentas onde lhes aprouve, como se, depois do canto da Ventania, decantassem: e dormiram como dormem as linhas imaginárias. Então o mundo se desordenou: povoou-se de pontos de vista perdidos de linhas de pensamento, de pontos sem nós; minha pena, talvez por isso, escreveu uma história em linhas tortas, começando em fim:
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Conheces a concha? Ou apenas o som do que ela finge?
Acalme-se: não há mar que não se revolva. São só memórias… Memórias crepitando na ponta do meu charuto, no ponto do meu afinal; palavras contidas que estouram em baforadas, povoam o ar… Lembranças incendiando meu tempo, fagulhas de que sou feita: não seu corpo, de relógio, mas o corpo-ampulheta de um texto que se costura a medida que me desfaço – como fazem as tecelãs quando do fim da linha, como os galos tecendo a manhã. Corpo é limite: pudesse ser aquarela e me desfaria em cores de papel… Mas sou presa, presa numa destas fatalidades de sonho: não posso parar a pena, sob pena de não existir – se desejo estender minha existência, pô-la ao varal para o vento velar, devo cavá-la com as palavras em que me vou descompondo. Decerto os homens, como textos, existem dançando na palavra que os diz; poderia dizer da mulher que pareço, mas quero o gosto de discutir minha condição de texto: eu, ao contrário do parágrafo, viverei no ponto – antes dele eu vou assim me construindo para você, leitor…
Os instantes se enfileiram para ver o futuro chegar, as letras, para ver o derradeiro ponto – todo presente, afinal, é iminência (do futuro; do que há dentro da caixa): ou quase; não sei ser passado ou futuro, então titubeio sapateando nos dois pontos: passos escondidos na porta fechada. Vou pescando fagulhas poéticas, arremedando-as para o próximo instante: chego a elas e elas, chegadas, tocam-me e eu, gentilmente, explodo: poesia é iminência de qualquer revelação absorta que, amena, despedaça-nos fatalmente; vou tentando esta quase-poesia até podê-la inteira e não ser mais eu para somente sê-la. Leia mais…
Nunca sei se aconteceu debaixo de um guarda-chuva ou dentro de um quarto, o caso é que os pingos não chegavam aos i’s. Acho que dentro de um quarto: lembro da sensação de que o mundo acaba na próxima parede – de que além dela há o nada ou o recomeço do quarto cuja repetição preenche o universo. Comendo letras, engasgando-as para não arriscar um silêncio tão cheio de expectativa, tentei me conter entredentes: mas explodia (sempre soube que ele iria embora, que esperava tão somente a chuva de pontos que enterrariam minhas expectativas).

Eu assisto o pôr-do-sol pela janela do meu computador – é quando visto minhas letras em vermelho e nasço nas janelas que ao mundo me conectam.
Entro na sala – parênteses que convém. Ela, que é de bater papo, branca, como que nos cega – nela, temos os olhos como se vendados: estamos à mercê de mundos narrados, de pessoas que se inventam pela máquina da escrita.
Eu, ao contrário do parágrafo, viverei no ponto: antes dele eu vou assim me construindo para você, leitor.
A nhan gá sm. Bras. Na mitologia tupi-guarani, o espírito do mal, o Diabo (Mini-Aurélio, 2000).
Não me julgue apenas por estátua pensante: quero ser um contador de histórias.
Além das limitações de minha digna imobilidade, alimento-me das narrativas que por mim passam sem que, por elas, eu possa passar; além de todas as representações que me incubem, às quais me incumbe o ofício natural, além de mera caricatura de outrem, parasita ordinária de glória alheia, fração duma imensa paisagem urbana, carbono, relativa arte; além de todo esse nada, sou tudo em prisma metafísico: apreciador de histórias por meu próprio gosto e contador delas se alguém se permitir espectador, não por que nego meu ofício natural, mas porque além da minha pacata existência como estátua há uma alma que, por sê-la, tem seus desejos e o ensejo de alcançá-los, por mais que a humanidade não admita e a imobilidade não permita. Leia mais…







